terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O conceito de rock


Que pretensão definir o rock! Absurdamente polimorfo, ele parece variar mais no tempo e no espaço do que o fazia, por exemplo, o barroco na Idade Moderna. Mas se a idéia é definir, arregacemos as mangas e vamos ver o que é que dá.
Vamos partir do concreto que a definição que procuramos vai surgir normalmente. Por exemplo: parece difícil negar que Rock around the clock de Bill Haley and his Comets seja rock. O mesmo se pode dizer de Jailhouse rock com Elvis Presley, Johnny B. Goode de Chuck Berry, Help! dos Beatles, Satisfaction dos Rolling Stones e muitas outras. Por quê? Poderíamos argumentar que esses clássicos têm o dom de agitar as platéias e fazem o mais rígido dos jovens se contaminar pelas notas que parecem penetrar pelas veias e artérias e põem o sangue para borbulhar.
Para entender o rock é necessário não perder isso de vista. O rock pressupõe a integração do conjunto ou do vocalista com o público, procurando estimulá-lo a sair de sua convencional passividade perante os fatos.
0 rock precisa de liberdade física, o que ficou claro de Elvis (The Pelvis) a Fred Mercury, assim como das pinturas multi-coloridas dos hippies dos 60 às cores agressivas do punk dos 70. É nesse sentido, que a "música de protesto", como é convencionalmente chamada, não é rock. Dominada pela necessidade de se passar uma mensagem política, ela coloca em 2º plano a questão do som, para que o público se atenha à letra.
Tão corpóreo quanto dançar (mesmo que isso signifique pular) é cantar. Não importa se o tom ou mesmo a letra estão certos. Daí a pouca importância de o rockeiro saber ou não inglês. Se não sabe, inventa. Haverá coisa mais fácil do que gritar "She loves you", ié, ié, ié"?
Rock é, portanto, e antes de tudo, som. Dentro da música, uma nota distorcida de guitarra parece atingir não só o ouvido e o cérebro, mas cada uma das células do corpo humano, fazendo do rock um dos ritmos musicais mais agitados que se conhece nas sociedades modernas.
Como é mais do que sabido, o rock foi buscar esse elemento físico nas tradições negras do rhythm & blues, tão fortemente arraigadas nos EUA. Aquilo que o branco queria só o negro possuía, mas o clima macartista dos anos 50 teimava em impedir a união. Nas proféticas palavras do coronel Parker, o manager de Elvis Presley, "o dia em que eu achar um branco que cante como um negro ficarei rico". Ficou.
"É difícil explicar o rock'n'roll (...). É uma batida que te pega. Você o sente" — Elvis.
O rock também deve ser conceituado a partir do seu mercado consumidor. Eu me refiro ao indivíduo que compra o LP, ouve as FMs, assiste aos shows e, em diferentes níveis e graus, idolatra bandas e solistas.
O rock não é, portanto, apenas um tipo especial de música, de compasso ou de ritmo. Restringi-lo a isso é não reconhecer sua profunda penetração numa parcela (cada vez mais) significativa das sociedades ocidentais. Talvez o músico possa ouvir estas palavras com estranheza, mas não o historiador.
O rock é muito mais do que um tipo de música: ele se tornou uma maneira de ser, uma ótica da realidade, uma forma de comportamento. O rock é e se define pelo seu público.
E é por definir o rock a partir do mercado que não vejo grandes distinções entre o rock'n'roll dos anos 50, o rock das grandes bandas dos 60 e 70, o punk, o new wave e outros menos votados.
Pelos mesmos motivos, o Rock não é "basicamente americano". Entenda bem: ele surgiu nos EUA, possui lá o maior manancial fornecedor de grupos de rock, mas ele é absolutamente internacional. O crescimento do espaço dominado pelo Rock se fez às custas das músicas nacionais e regionais.
Por fim, a questão da produção. O rock envolve um setor de produção, uma comercialização, propaganda, lucros, royalties, etc. Por enquanto, literatos do social e do econômico, eu fico com o cultural.

Introdução


         Estamos num país subdesenvolvido (periférico, me desculpem) cuja cultura popular esteve sempre pressionada por aquilo que o padrão americano e/ou europeu estabelecia.
         Como um estudante que só conheceu o mundo nos tempos da repressão vitoriosa e que fez seu debut político cantando Caminhando na Praça da Sé em 1973, eu olho para aquela década com respeito e inveja, porque a geração que fez Luís Travassos, John Lennon, Augusto Boal, Mick Jagger, Che e Cohn-Bendit, fez aquilo que outros gostariam de ter feito e que a repressão e a autocensura não deixaram. Não há espaço aqui para analisar isso, mas a verdade é que eles ridicularizaram o planeta e fizeram todo mundo ver que o rei estava nu. Brilhantes.
E inimitáveis. Sim, porque os tempos mudaram. Pode parecer perda de tempo dizer isso, mas os 80 não são os 60. Ninguém fez ou faz o que a geração de 68 fez. Para deglutir tudo aquilo que os jovens dos anos 60 denunciavam vai ser necessária mais de uma geração.
Não há sentido em você cobrar de um adolescente de hoje a politização que você possuía em 64 ou 68. Não pense que os de hoje esqueceram suas idéias e seus mortos. Apenas não lhes cobre a cópia.
Por isso, quebre seu dogmatismo para com o rock e você ouvirá melhor o que os novos jovens acham do mundo.
Existem vários rocks, do mais harmonioso e melódico como o dos Beatles, passando pelo progressivo do Gênesis e do Yes até o mais ''pauleira'' do Deep Purple ou do Led Zeppelin.
Na verdade, o que é necessário perceber é que tudo é uma questão de se acostumar. Negar o rock é, como em várias outras posturas conservadoras, negar os tempos.
Dê-se uma chance. Preste atenção na letra de Street fighting man e você vai descobrir que o rockeiro não é tão alienado quanto você pensa; lembre que o LP Sandinista talvez divulgue muito mais a causa nicaragüense do que todos os jornais alternativos juntos; descubra que os vocais dos Beatles, dos Mama's and Papa's ou do Queen são de encher os olhos; sinta como um solo de guitarra do Eric Clapton, do George Harrison ou do Jimmy Hendrix são de arrepiar a espinha; Ouça o Sgt. Pepper's, o Tatoo you, o Tommy, o Hair, o The game ou o Selling England by the pound e me diga depois se você não sentiu nada.